Carta Mensal

Ribeirão Preto, 03 de novembro de 2026.

Prezado Cliente,

Outubro foi um mês de fortes oscilações no mercado brasileiro, sendo um bom exemplo de como os preços dos ativos são guiados, antes de tudo, por expectativas. Na primeira quinzena, o mercado doméstico passou por uma reprecificação impulsionada pela perspectiva de alternância de governo, com queda do dólar e renovação do recorde de fechamento da bolsa. Esse movimento estava muito mais ligado às apostas sobre o cenário político do que a uma mudança efetiva das condições econômicas.

Encerradas as eleições, o cenário antecipado não se confirmou e a reprecificação aconteceu no sentido oposto, acionando inclusive um circuit breaker pela primeira vez desde 2020. O mês terminou com o dólar no maior patamar do ano e a bolsa devolvendo a maior parte da valorização acumulada em 2026. Os juros futuros também subiram cerca de três pontos percentuais na semana, o que encarece o crédito e tende a adiar decisões de investimento. Independentemente de como esse ajuste se acomode, os desafios da economia brasileira continuam os mesmos, sobretudo as contas públicas e a trajetória da dívida.

O ambiente internacional segue repleto de hostilidade, sem emitir qualquer sinal de trégua ou mudanças para os próximos meses. Mesmo assim, o Brasil segue recebendo mais de U$80 bilhões em investimento estrangeiro direto, sendo um forte vetor de ancoragem cambial, impossibilitando uma desvalorização duradoura do Real do patamar atual.

No cenário macroeconômico, os juros seguem elevados e os dados da economia real relacionados a inflação apresentaram alívio nos últimos meses. A bandeira tarifária verde voltou a vigorar em outubro, após cinco meses de bandeira amarela, e foi mantida para novembro. No campo, a Conab projeta nova safra recorde de grãos em 2026/27.

Por outro lado, a alta pontual do dólar, o prolongamento dos altos preços do petróleo e os possíveis efeitos do El Niño sobre os alimentos tendem a pesar sobre as expectativas dos próximos meses.

O Copom reduziu a Selic para 13,75% ao ano na última reunião. Avaliamos que existe espaço para novas reduções, em ritmo cauteloso. Na atividade, esperamos que os programas e estímulos implementados ao longo do ano, que ganharam ritmo no período eleitoral, continuem sustentando o consumo e possam trazer surpresas positivas nos próximos meses, pelos investimentos em infraestrutura e robustez que a safra agrícola vem mostrando até então.

O desequilíbrio fiscal brasileiro é de natureza estrutural e não permite correção rápida. Boa parte da despesa pública cresce por regras já previstas em lei, como benefícios atrelados ao salário-mínimo e gastos vinculados à arrecadação. Com essa rigidez, o mais viável é conter o ritmo de crescimento dos gastos por meio da revisão de programas e de incentivos tributários.

Para 2027, o equilíbrio das contas públicas segue como o principal desafio. A trajetória da dívida pública exige um esforço fiscal persistente, mas não nos parece necessária a magnitude defendida pelo mercado. Uma consolidação gradual tende a ser apropriada. O ponto central não é cortar, mas fazer a despesa primária crescer em ritmo igual ou inferior ao da economia. A definição da equipe econômica seguirá o calendário próprio da transição e não esperamos nenhum movimento antecipado, mas deve ser responsável por emitir os primeiros sinais de um possível distensionamento político.

É um processo de médio/longo prazo, e o que vai fazer diferença é a consistência e credibilidade das medidas ao longo dos próximos anos.

Atenciosamente,

 

03/11/2026 

 

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